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Notícia Postada em 20/11/2009
Sou a caçula de uma família de cinco pessoas. Eu, minha mãe e meus três homens: pai e dois irmãos. Morávamos numa casa, viajávamos juntos, éramos unidos e nos divertíamos muito! Alguns fatos do passado ficam intactos na nossa “caixa de memórias” e permanecem tão vivos que ainda têm os mesmos contornos, cores, cheiros, vozes e sentimentos que criamos para eles um dia.

Minha mãe, no contexto do lar, era “mulher-macho”. Era quem fazia churrasco, o supermercado, dirigia o carro nas viagens, usava o martelo, a furadeira, mexia no jardim e pintava as paredes. Meu pai trabalhava muito. Nos verões, incentivava os esportes e organizava os campeonatos de futebol juvenil na nossa casa de praia. Nas fotos da época, apareço sempre como mascote dos times familiares. Só de primos, somavam uns 12! Eu, sem nenhuma prima pra brincar, circulava lépida e faceira no meio deles.

Desde que nasci, fui inserida no universo masculino. E nesse universo, eu era única, absoluta, reinava. Entretanto, de tempos em tempos, meus três homens se trancavam no quarto para longas conversas. Eles nunca me convidavam para participar... Eu não sabia sobre o que falavam, mas imaginava. Ficava intrigada, curiosa, e minha única certeza era de que ali eu não era bem-vinda! Tinha vergonha de pedir, mas esperava o dia em que minha mãe ia fazer o mesmo comigo. Numa família de machos, com uma mãe reservada, gaúcha, isso nunca aconteceu.

Provavelmente carrego as conseqüências dessa falta até hoje. Nada que a vida não me ensinasse, mas é fato que não tive orientação em casa. O que aprendi, foi sob uma ótica masculina, pescando no ar, nas entrelinhas, de soslaio, atenta a tudo e a todos.

Quando tinha uns 12 anos, só pensava em jogar taco, surfar e fazer “bolinho de chuva”. Me vestia como um moleque! Na praia, minhas amigas já começavam uma pressão por eu ser a única que ainda não tinha beijado nenhum menino. Não ligava, mas com o tempo, na solidão de uma pré-adolescente insegura, fui ficando preocupada, achando que os meninos não iam me querer ou que iam falar mal de mim pelas costas. Assim deixei que elas escolhessem “o cara” do primeiro beijo. Local: na matinê, claro.

Tímida, fiquei encostada no muro do clube até chegarem dizendo que “o cara” estava me esperando na pista de dança. Fui até ele, praticamente empurrada pelas amigas, e começamos a dançar uma música lenta enquanto eu esperava atenta pela hora do beijo. De repente ele me olhou, colou a boca na minha e enfiou aquela língua dura que mal se mexia. Fiquei tão nervosa que não sentia nada além de vontade de rir e sair correndo dali.

Mais uma vez, nada que a vida não me ensinasse, mas gostaria, e acho que seria possível, ter chegado mais tranquilamente até ali. Ou, quem sabe, o “atrapalho” seja a parte leve da vida? A ironia é que a vida me colocou novamente diante de três homens e, agora, me pergunto como devo me educar como mãe. Todas as relações são permeadas por libido e, com certeza, viverei situações cotidianas que terei que enfrentar sem medo, sem titubear, com certeza e maturidade para dialogar.

Acho que não preciso saber todas as respostas, mas, nem por isso, vou deixar de me perguntar. Quero orientar meus filhos em excessos nem constrangimentos, incentivando uma percepção, uma atenção, um olhar para si, para que não se deixem ignorar, para que não se negligenciem jamais, sem que, para isso, desrespeitem o outro, mostrando que não existem padrões, que eles podem ser diferentes e fazer as coisas no tempo deles.

Desta vez terei um aprendizado provocado por meus filhos. E, lá na frente, quando meus homenzinhos estiverem prestes a se desgarrar, vão se trancar no quarto com o pai, mas, dessa vez, saberei exatamente o assunto da conversa. Ainda assim, aquela menina curiosa vai ter vontade de participar. Talvez, quem sabe, até participe!

Fernanda Lima – Apresentadora de TV


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